segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Palavras (Monólogo #0006)

O papel não fala. A grafite não julga.

Encontro-me a repetir isto sempre que me vejo a inserir as minhas confissões em papel.

No entanto, não consigo fazer tais confissões de modo poético, floreado e metafórico, como muitos o fazem, embora tal me aprouvesse.

Não. Nunca fui bom com palavras, nunca fui bom a florear, nunca fui bom a pôr as minhas palavras à frente das acções, nem a pôr por palavras a torrente constante de ideias, sensações e sentimentos que me assaltam. Especialmente não de uma forma fluída e organizada, já que até tenho tendência para gaguejar...

Assim, falo poucas vezes, mas, quando falo, falo que me desunho, tentando, no entanto, ser sempre o mais claro, fluído e analítico possível... o que nem sempre acontece.

No papel, não gaguejo. Com a grafite, organizo as minhas ideias (quando não começo a devanear e a mudar de assunto...), nos meus cadernos, ponho os meus pensamentos e confissões. Melhor que um pequeno cubículo e um padre, na minha opinião... melhor que uma pessoa.

Assim, nos meus cadernos, deixo o âmago do meu ser, e, por vezes, partilho esses diminutos pedaços de mim com o Mundo, numa tentativa de dizer: "Olá Mundo! Estou aqui, caso te tenhas esquecido!"

Às vezes, ele lembra-se. Às vezes, ele esquece-se. Às vezes, parece que fica chateado e manda-me tudo e mais alguma coisa à cara, só para ver se quebro... às vezes, consegue.

E então, apanho os pedaços. Junto as engrenagens. Insiro correias e rodas dentadas. Ponho o cristalzinho a oscilar outra vez. Um novo vidro, ponteiros reparados, corda nova. Saio mais difícil de partir... mas quando parto, parto mais violentamente.

E é esta a minha existência, passada no meio de relógios partidos, no seu incessante tique-taque, desesperadamente a tentar dar corda ao Tempo... e dizer as horas.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Devaneios (Monólogo #0005)

E pois, olha, cá vou andando, com a cabeça entre as orelhas, como se diz. E ando porque... pronto, é assim que me posso deslocar.

E se deixar de ter pernas para andar? Rastejo. Ou então cresciam-me asas. Isso seria giro, poder voar. É um conceito interessante, voar, e algo que o ser humano sempre desejou fazer, nem que seja em sonhos. Muita gente voa neles, mas sem asas.

Mas como querem voar sem ter asas? É como andar sem pernas.

Nunca voei nos meus sonhos, mesmo quando tenho asas. Nem nadei, embora goste muito de o fazer. Andei, sempre. Bem, às vezes corro, mas isso é um andar (muito) apressado, por isso nem sei porque faço agora a distinção. Bah. Devaneio.

E cada vez menos tenho sonhos dormidos. Sonho acordado. Por vezes, apago e começo a fazer uns rabiscos num papel, outras vezes fico somente a olhar para o vazio, recolhido no meu pequeno mundo, a ter os sonhos que deveria ter tido durante o sono.

Outras vezes escrevo, como agora, e ponho os meus devaneios em papel, numa caligrafia quase inteligível, necessária para acompanhar a torrente de ideias, imagens, sons, cheiros, sabores e texturas que me assaltam durante esses sonhos, mas principalmente ideias e palavras. (Olha, tinha-me esquecido de mencionar essas e agora ficam aqui.)

A escrita apressa-se, a mão doí (agridoce dor, que me manda parar e continuar ao mesmo tempo), a borracha apaga qualquer erro que note e a mina gasta-se.

E escrevo. E sonho. E voo, nado, rastejo e ando.

E sou eu, reflectido nos sonhos e letras, nas palavras que escrevo, e cujas frases que formam, que, na maior parte, não gosto, mas escrevo de qualquer maneira, porque tem que ser, tenho que as tirar da cabeça.

Tenho ficado com novos calos. Não sei se de escrever ou se da espada, mas tenho novos calos. Três: um, na base da falanginha do polegar, mesmo acima da articulação, e outros dois, um debaixo do médio, outro debaixo do anelar, por baixo da articulação entre a palma e a falange dos respectivos dedos. Isto para se juntarem àquele que me acompanha há mais de dez anos, treze ou catorze talvez, que fica no médio, onde apoio o instrumento de escrita. Tudo na mão direita.

Bem, talvez não calos, mas calosidades, um endurecimento da pele sem começar a crescer para dentro.

E agora olho para a mina da lapiseira e apercebo-me que, mais um bocado, e já gastei coisa de cinco milímetros de mina. Parece pouco, mas já dá para uns quantos metros de traço. Normalmente não escrevo tanto de uma só vez, mas apetece-me divagar, devanear, estar apagado mais um pouco e continuar o meu sonho acordado.

Acho que vou largar a minha lapiseira cor-de-rosa e rasca... bem, rasca, barata, mas já me acompanha há coisa de oito anos. E foi com ela que escrevi todos os meus devaneios (salvo quando não a encontrava), e será assim até ela dar as últimas... ou eu dar as últimas, o que vier primeiro.

Bem, mas agora sim, acho que vou pousar a lapiseira, vou sair do devaneio, e entrego-me ao sonho.

Quem sabe, se desta vez hei de voar...