terça-feira, 31 de maio de 2011

#0011 - Viagens (Chapter II - Part Three: Rescued – Act Two: How to Fly)

A caçada tinha corrido bem: tinham capturado um pequeno antílope. Não era muito grande, mas o suficiente para alimentar os três. No fim, para apagar a fogueira, Gaktak estendeu a mão na sua direcção e absorveu o Maná do fogo, extinguindo-o. Rohan foi o primeiro a falar: -“Então, vamos em frente.”
-“Certo”- respondeu Gaktak -“Vamos a isso!”- Gaktak levantou-se e os Elementais voltaram para as suas mãos, dissolvendo-se no ar.

-“E agora, vamos por onde?”- perguntou Rohan.
Gaktak aponta para o fumo: -“Bem… um pouco óbvio… vamos em linha recta em direcção ao fumo! Ah! Tinha dito há pouco que arranjaria maneira de encurtar a nossa viagem…”- Gaktak sorriu -“Que acham da ideia de voar?”
Rohan preferiu ficar em terra firme: -“Eu já vos apanho. Lylith, vai com ele, eu logo vou ter convosco. Quero observar com mais atenção a floresta. Logo nos vemos.”
“Está bem, então, até já.”-
respondeu Lylith.
-“Ugh… porque não…”- enquanto Rohan seguia o seu caminho, Gaktak virou-se para Lylith: -“Bem, há alguns feitiços para voar… Deixa-me só decidir qual é que é o mais eficiente para esta situação…”- Gaktak coça a barba -“Já sei! Elementos que por mim circulam, Energia que se esconde de nós, meros mortais, Força que provém da fúria divina. Vento, tu que te escondes melhor, o mais invisível, só sentimos a tua força quando, em desprezo à nossa condição, nos empurras e desabas. Vento, empresta-me essa tua força, essa tua brutidão e fúria puras, impulsiona-me e carrega-me até ao meu destino. Move-te, Turbilhão!"- feito isto, dois Turbilhões apareceram: um por debaixo de Gaktak, outro por debaixo de Lylith, elevando-os acima do nível da copa das arvores.

-“Que estás a fazer? PÕE-ME NO CHÃO; JÁ!!!”- gritou Lylith
Gaktak esboçou um sorriso malicioso: -“Tem cuidado com o que desejas…”- Gaktak estalou os dedos e o Turbilhão que se encontrava debaixo de Lylith desaparece, fazendo-a cair.
-“Não, pára! PÁRA! NÃO ME DEIXES CAIR!!!”
-“Ah… então assim…”-
enquanto Gaktak diz isto, ele estala os dedos mais uma vez, fazendo aparecer novamente um Turbilhão debaixo de Lylith, parando a sua queda e elevando-a novamente ao nível de Gaktak.
-“NUNCA MAIS FAÇAS ISSO SEM PERGUNTARES PRIMEIRO, PERCEBESTE?!”- admoestou Lylith.
-“Isso o quê? O largar ou o levantar? *hehe* Não, mas percebi-te: absorvi a mensagem.”- Gaktak voltou-se para a direcção do seu destino -“Então, vamos?”
-“Acho bem que sim”-
Lylith já estava mais calma -“Sim, vamos, mas não muito depressa, sim? Se vou voar, ao menos quero aproveitar a vista…”
-“
*suspiro* Mas isso tira a piada toda… mas certo… ainda vos devo uma, por isso… Em frente!”
Gaktak e Lylith começaram a voar em direcção à aldeia, a uma velocidade um pouco maior à de corrida, satisfazendo o pedido de Lylith, para desagrado de Gaktak. A cerca de meio caminho, Gaktak já estava um pouco enfastiado, por isso, decidiu meter conversa: -"Sei que me quererão fazer todo o tipo de perguntas... não é todos os dias que se vê um jovem de cabelos brancos... Embora não goste de me repetir, ainda vos devo uma... uma que ainda vai demorar um bom bocado até ficarmos quites, por isso... qualquer tipo de perguntas que te passem pela cabeça, podes despejá-las..."
-"Certo... então, porque é que existem pessoas assim, como nós, pessoas...hum... mágicas, por assim dizer? Na minha tribo, nunca vi nada semelhante..."
-"Nós não somos especiais... Na verdade, qualquer um pode utilizar magia... só é preciso é saber como utilizar todo esse potencial... A principio é que pode ser perigoso..."
-"Entendo... isso quer dizer que o Rohan também poderá usar essa magia? E a magia é toda igual?"

-"Depende... a magia está dividida por categorias: Elementalismo, Druidismo, Misticismo, Mental (ou Feitiçaria), Iconomancia, Artes Sagradas (ou Traumatologia) e Artes Negras (ou Necromancia). E também há tipos incompatíveis, como, por exemplo, A Traumatologia e a Necromancia. Rohan também pode não conseguir usar: pode não ter Maná suficiente ou a mente dele pode não estar preparada... O corpo parece estar, até melhor que o meu, mas, se pelo menos uma destas condições não se verificar (Preparação mental, preparação física, e quantidade de maná), o cérebro dele explode dentro do crânio quando ele a tentar fazer... na verdade, mesmo que todas as condições se verifiquem, tal também pode acontecer numa das primeiras vezes em que ele entrar em Claridade..."

-"O que é entrar em Claridade?"
-"O estado de Claridade é um estado em que a tua alma abandona o teu corpo e passa para o chamado Plano Universal: o plano dos planos. Neste estado, podes retirar Maná directamente do plano da tua escolha... desde que saibas utilizar magias desse plano e que não seja incompatível com nenhum dos teus outros planos. Dependendo do nível (digamos assim) de experiência de um mago, ele demora mais ou menos tempo a entrar em Claridade. Por exemplo, eu consigo faze-lo em pouco menos de um segundo... Quase instantaneamente. A partir do momento em que entras em Claridade, até ao momento em que a tua alma volta ao teu corpo, nem um segundo se passou neste mundo.”

-"Parece bastante complicado de perceber... e como se entra em Claridade?”
Gaktak encolheu os ombros: -"Meditando!"
-"E como é que isso se faz exactamente?"-
Lylith já parecia um pouco desconfiada.
-“ *suspiro* Ugh... agora não consigo explicar bem... é algo que já faço instintivamente... mas vou tentar..."- Gaktak pensa um pouco, tentando ver como é que ele fazia para meditar… para ele já era algo automático, por isso, não conseguia explicar bem, mas, de qualquer forma, tentou: -"Ah! Limpa a tua mente: tens de te concentrar na essência do teu ser... Não no físico, mas sim na tua alma... Tenta elevá-la, separá-la do seu recipiente físico... Acho que é assim... pelo menos resulta comigo... cada um deve de ter a sua maneira de meditar... nunca pensei muito sobre isso..."- depois, Gaktak riu-se, coçando a nuca, envergonhado.

-"Bem… acho que estou a perceber... e o teu braço?"
-"Bem... isso é porque sou um Necromante... na verdade, sou o filho de dois Necromantes, por isso não escolhi esse tipo de magia... No entanto, só estou aprofundado o suficiente nesta Arte para não me corromper a alma... se me entregar mais, a minha alma é corrompida. Não que tenha poucos conhecimentos, na verdade, até tenho bastantes e o meu nível de poder nessa área é bastante grande, mas, comparado com o daqueles que se deixaram corromper, como o meu meio-irmão, Victor, não é nada. Não vos disse ao inicio porque não é algo de que me orgulhe... Não fui eu que o escolhi. Por isso é que compenso com uma grande maestria nas Artes Elementais e na arte do combate... Como essas duas especialidades, tal com a decisão de tentar envergar pela Traumatologia, mesmo estando ciente da minha condição, levando ao estado presente do meu braço, foram escolhas minhas, orgulho-me delas. *suspiro* Na verdade, ser Necromante é um crime na maior parte do mundo conhecido, por isso, tenho de ter um documento que comprove que sou um Necromante Não Praticante, documento esse que foi destruído durante a tempestade, por isso o mais provável é, assim que chegarmos aquela aldeia, eu ir parar a algum calabouço durante uns dias, até chegar uma cópia da minha terra natal..."

-"E não podes provar de outra maneira?"
-"Não... dantes marcava-se com um ferro quente, nas costas do Necromante Não Praticante, uma caveira com uma corrente à sua volta, mas já não se faz isso... Agora é tudo em papiro, papel, rocha ou pergaminho, dependendo da região.”
-"Então... no teu caso... estava escrito em papel... mas duvido que naquela aldeia eles façam isso... como fica aqui, no meio de nada..."
-"Mando um Elemental como mensageiro..."
-"E não tens de pagar nada? por teres perdido os documentos?"
-"Não... o reino onde vivia é suficientemente rico... por isso o Rei não pede nada por causa disso... Noutros sítios pode ser diferente, mas ali não se paga nada por causa de, como o Tesoureiro Real diz ‘futilidades’.”
-"Ah bom... menos mal... e vocês não têm de se apresentar de certo em certo tempo?”
-"Não... se praticarmos Necromancia depois do documento ser assinado, aparece um "X" no original, que se encontra na terra natal do Necromante, e na cópia, que está com ele... Até 3 somos perdoados, mas depois... somos levados a julgamento, podendo levar de 3 anos de cadeia a pena de morte, dependendo da ofensa."

-"Na minha tribo não temos nada disso... é uma aldeia pequenina... simples, mais nada..."
-"Pois... é a vida... quanto maior o território, maiores as burocracias..."
-"Tens razão... o que será que Rohan esta a fazer?"
Gaktak encolheu os ombros: -"Não sei... espero que tenha encontrado alguma coisa de interesse... assim o tempo extra que levará a chegar ao nosso destino não será desperdiçado..."

Gaktak e Lylith param, pairando por cima do espaço directamente antes da entrada da aldeia.

-"Talvez... logo se vê...”- Lylith olha para baixo -“Bem, entramos?"
-"Certo, vamos descer."-
responde Gaktak. Em seguida, os Turbilhões por debaixo de Gaktak e Lylith começam a descer suavemente até ao solo.
Assim que atingem terra firme, são interpelados por um guarda: -"Alto! Identifiquem-se!"
-"Gaktak Elentirr, natural do reino de Aranae."
-"Eu sou Lyllith, Elementalista, natural da floresta Etherna”
Assim que olhou para Gaktak, o guarda não poderia querer saber menos da identidade de Lylith: -"Necromante! Preciso dos documentos!"
-"Não os tenho comigo... Perdi-os aquando do naufrágio do navio."-
Gaktak estendeu uma mão e criou um Elemental do Vento -"Mando isto para os cá trazer..."
-"Acho bem que se despache."-
respondeu o guarda, em tom cortante.
-"Ainda deve de demorar alguns dias... a distância não é pequena..."- Depois, Gaktak dá as instruções à pequena criatura: -“Vai a Narak o mais rápido que puderes, diz-lhes para fazerem uma cópia do meu documento de NNP, que a minha se perdeu durante o naufrágio do Rasga-Mares e trá-la o mais rápido possível! Memoriza a minha Assinatura de Maná para me encontrares quando voltares.”
-"Bem... enquanto eles chegam ou não chegam, vai ficar no calabouço. Formalidades, sabe."-
disse o Guarda, agora a segurar em correntes.
-"ENTÃO E EU? FICO AQUI SOZINHA NUM SITIO QUE NÃO CONHEÇO?!"- berra Lylith.
-"Tivesse vindo com mais alguém..."- retorquiu o Guarda, em tom frio.
-"Está a gozar comigo não está?!"- Lylith indignou-se.
O guarda prendeu Gaktak com as correntes e respondeu: -"Eu tenho cara de gozo, senhora? Vou informar os meus colegas que vou meter este traste no calabouço e daqui a bocado um deles virá."- O guarda vira-se para Gaktak e começa a levá-lo para os calabouços.
-"Para que? Para me prender também?”- Lylith já estava a pisar o risco, fazendo Gaktak pensar que ela queria era habilitar-se a uma estadia de luxo na estalagem “A escura masmorra”... -“Veja lá, não fique sem o lugar de guarda por falta de prender gente!"- gritou Lylith directamente para o guarda.
-"Oh cabeça de vento, então não é preciso pelo menos um guarda de serviço à entrada? Caso não tenha reparado, isto é uma aldeia fortificada!"
As coisas estavam a azedar… Gaktak sentiu a necessidade de intervir:
-"Calma, calma..."
Ignorado.
-"Uhhh! Veja lá se a cabeça de vento não se vira a si!"
-“Lylith, estás a um passo de me ires fazer companhia…”-
pensou Gaktak.
Gaktak volta-se para Lylith: -"Também estava a falar contigo Lylith..."- em seguida, vira-se para o guarda: -"Não tem um calabouço onde me prender? Vamos lá despachar isto antes que alguém se magoe..."
-"É melhor é…"-
diz friamente Lylith.

Depois, o guarda levou Gaktak para os calabouços. Pelo caminho avisou um outro guarda para o ir render ao portão, tendo este respondido imediatamente.
Entraram nos calabouços a partir de um alçapão ao pé do posto de milícia. Provavelmente os guardas daquela aldeia pertenciam a essa milícia. Os calabouços eram como quaisquer outros: celas com barras enferrujadas, uma janela minúscula, também com barras de ferro por cela, com o resto da pobre iluminação fornecida por candeeiros de azeite.
-“Bah… mesmo que houvesse livros neste sítio, com esta luz não dava para ler…”- pensou Gaktak. Mas, mesmo assim, Gaktak decidiu tentar: -“Não há nada que se leia aqui? Devem de ter algo para entreter os reclusos, para evitar motins…”
-“Bah! Querias! Sempre que há aqui um motim, matamos todos os envolvidos… Por isso, tal não é necessário…”-
notava-se: já não havia muitos prisioneiros -“De qualquer das formas, devemos de estar a chegar ao seu quarto de luxo… *hehe*
-“Sabe que eu só estou aqui porque quero…”
-“Há! Balelas!”
-“Olhe para as minhas correntes…”
-“Huh?”-
o guarda virou-se para trás, para olhar para Gaktak. Mesmo à frente dos olhos dele, do chão de pedra saiu terra e envolveu Gaktak. Quando essa mesma terra o libertou e voltou para debaixo das pedras, Gaktak nem tinha uma só mancha de terra, como nem tinha correntes a prende-lo.
-“Como vê: eu só estou aqui porque quero… Por isso, não acho que era má ideia ver se me arranjava um livro ou dois, para ver se não perco a vontade…”
-“Uh… Certo, certo… Assim que o instalar, vou já ver se encontro qualquer coisa…”-
o guarda parecia seriamente assustado, decidindo “instalar” Gaktak numa das celas mais isoladas, para os outros reclusos não o verem a receber tratamento especial.

O guarda abriu a porta da cela: -“Aqui está a sua suite, meu senhor…”- disse o guarda em tom sarcástico -“Vou já buscar o seu livro…”- Gaktak entrou na cela que lhe foi designada e o guarda logo trancou a porta.
Gaktak conjurou uma pequena bola de fogo e fê-la flutuar no ar, para ver melhor a sua cela. Logo se arrependeu: havia ratos no chão, as ossadas do último ocupante daquela cela a um dos cantos da divisão, com o respectivo crânio ao pé da porta, o que levava a pensar que o detentor daqueles ossos tinha sido morto durante um dos motins, decapitado. Havia uma cadeira de pedra com um grande buraco no assento, com as pernas ligadas por placas, que provavelmente servia para fazer quaisquer necessidades fisiológicas inadiáveis. O barulho de água a correr indicava que a “retrete” estava ligada a um sistema de esgotos, que provavelmente dava ao mar. Havia também uma cama de pedra, coberta com palha velha e o resto de uns lençóis. Gaktak começou por dar às ossadas um funeral decente. Manipulando as pedras do chão da sua cela, removeu-as do seu local de origem até ter uma área livre suficientemente grande para providenciar uma campa ao defunto, em seguida, removeu toda a terra dessa área até criar uma campa suficientemente funda. Depois, depositou as ossadas e tapou a campa com a terra e as pedras que tinha removido, deixando tudo tal como estava. Em seguida, utilizando água, que fez aparecer com o feitiço Aqua-formar e que aqueceu até o ponto de fervura, deu uma limpeza à cela… -“Lá por estar preso, não quer dizer que tenha de estar preso numa espelunca!”- pensou. Depois, substituiu a palha e os farrapos por terra. Assim à noite, ele aqueceria a cama de pedra, de modo a aquecer a terra, assim, ele teria uma cama quente e relativamente confortável onde se sentar. Ele já tinha utilizado esta técnica quando saia de Aranae, de modo a saber adaptar-se a vários climas, para quando finalmente estivesse preparado para envergar na sua viagem para enfrentar Victor.

Algumas horas passaram, e chegou o Guarda com um livro: -“A-A-Aqui tem o livro…”
Gaktak examinou o livro: um volumoso Tomo, intitulado “História de todo o mundo conhecido”: -“Meh… Não gosto muito de História… mas serve, obrigado… Ah! E gostava que se certificassem de que a minha amiga… sabe, a “cabeça de vento”? Tem uma boa estadia… Ela deve de, mais tarde, se é que esse alguém ainda não chegou, ser acompanhada por um homem, um pouco mais baixo que eu, não muito, mas mais musculado, cabelos e olhos castanho-escuros. Também gostaria que esse homem tivesse uma boa estadia… Estes parecem-me ser marido e mulher, ou pelo menos amantes, por isso, ao tentar fazer com que eles tenham a melhor estadia possível, não os tentem com os prazeres da carne, a não ser que seja esse o seu desejo… Percebido?”
-“C-Claro…”-
e o guarda afastou-se, deixando Gaktak sozinho na sua cela.

Algum tempo passado, e Gaktak sentiu o tédio a assalta-lo. Tentou ler o livro, mas não conseguiu passar das primeiras páginas… o filho da mãe do guarda podia ao menos ter tentado arranjar algum livro minimamente interessante… Após tais pensamentos, ele fez aparecer na sua mão uma bola de fogo e começou a atira-la contra a parede, fazendo-a ressaltar como se fosse uma bola de borracha. GAH!!! Quando é que aqueles dois apareciam? Lá estava ele a morrer de tédio e eles os dois na rebaldaria! Era melhor que Rohan não estivesse a desperdiçar o seu tempo…



(Continua no próximo acto)

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RISE!!!

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